Tom Zé aos 90: a arte de não caber direito
Tom Zé completou 90 anos em 11 de outubro de 2026. A data permite revisitar uma trajetória em que experimentação sonora e baixa circulação comercial coexistiram por décadas. Participante da Tropicália, vencedor de festival televisionado e autor de canções sobre a modernização de São Paulo, o compositor baiano recusou acomodar sua linguagem num formato estável. Discos como *Todos os Olhos* e *Estudando o Samba* desorganizaram expectativas sobre canção e tradição musical. Seus instrumentos construídos a partir de objetos cotidianos ampliaram a investigação sobre a fronteira entre música e ruído. O período frequentemente chamado de ostracismo não representou paralisação criativa, mas redução dos meios de difusão. A redescoberta internacional mediada por David Byrne e pela Luaka Bop reabriu o catálogo a novos públicos, sem apagar os custos anteriores. A reportagem investiga como mercados, crítica e instituições classificam a invenção artística e por que tantas obras precisam da validação tardia para ganhar espaço. Aos 90, Tom Zé oferece um caso concreto para discutir permanência, autonomia e as condições materiais de fazer música sem repetir uma fórmula de sucesso.