Quando o Brasil parava para ver uma música vencer
Em 10 de outubro de 1966, “A Banda”, de Chico Buarque, e “Disparada”, de Geraldo Vandré e Theo de Barros, dividiram o primeiro lugar no festival da TV Record, em São Paulo. Defendidas por Chico e Nara Leão, de um lado, e Jair Rodrigues, de outro, as composições mobilizaram torcida, debate estético e leituras políticas num país sob ditadura militar. A disputa também ajudou a consolidar o festival televisivo como espaço de circulação de música inédita, embora a televisão daquele período estivesse longe de alcançar todos os brasileiros. Sessenta anos depois, o episódio permite confrontar a memória romantizada da chamada era dos festivais com a indústria contemporânea do entretenimento. Realities musicais continuam existindo, e até recuperaram competições de músicas autorais, como aconteceu no *Estrela da Casa* em 2025. A diferença está no centro do espetáculo: com frequência, a jornada dos participantes prevalece sobre a canção inédita. A reportagem investiga como indústria fonográfica, censura, gosto, classe social, meios de comunicação e fragmentação das audiências alteraram nossa maneira de descobrir, discutir e consagrar repertórios musicais.