Chiquinha Gonzaga, antes de a MPB ter esse nome
Chiquinha Gonzaga costuma ser apresentada como a primeira maestrina brasileira e autora de um marco do carnaval, mas essas definições não explicam a extensão de sua carreira. Entre o Rio de Janeiro imperial e as primeiras décadas da República, a compositora viveu da música enquanto transitava por salões, rodas de choro, editoras de partituras, teatros e festas de rua. A reportagem investiga como essa circulação ajudou a formar uma economia musical urbana e expôs hierarquias de classe, raça e gênero. A publicação de “Atraente”, em 1877, a estreia de “A Corte na Roça”, em 1885, a marcha “Ó Abre Alas”, em 1899, o sucesso de “Forrobodó”, em 1912, e sua participação na fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, em 1917, permitem olhar para a música como linguagem e trabalho. A partir de pesquisas acadêmicas e acervos históricos, o artigo também questiona o uso retrospectivo da sigla MPB e a narrativa da heroína isolada. Em vez de apagar as diferenças entre música popular e erudita, Chiquinha mostra como essas fronteiras eram negociadas e disputadas.